segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sobre Independências. Por Ângelo Portilho, grande amigo.


É Pedro... Naquele dia 7 você, a bordo do jato imperial, fez alguns contatos pelo celular de terceira geração.No seu notebook wireless, entrou no site de relacionamentos e criou a comunidade "Brasil Independente".Mais de 183 milhões de membros, sucesso absoluto!Tópicos das belezas naturais, das mulatas que não estão no mapa.Das loiras, das ruivas, das índias, das morenas.Do carnaval, do futebol, da cultura, da esperança.Da direção, da lei, do julgamento...Da mais completa tecnologia embarcada que nos libertou da matriz!
Depois de 508 anos, estamos nós aqui, evoluindo e querendo que as águas do rio Ipiranga comportem todas as lavadeiras que delas dependam para trabalhar.Que as escolas de pau a pique recebam os meninos e meninas que fizeram u'a maratona na estrada de terra para estudar.Calçando um par de sandálias trocado por um voto, vindos de uma casa de taipa iluminada à lamparina.Que os campos de várzea revelem talentos no esporte.Que os hospitais e o atendimento do Sistema Único sejam saudáveis.Que os ladrões de galinha estejam seguros por não precisarem do nosso famoso jeitinho para se alimentar.Que a terra onde se planta, esta vastidão de terra, não seja poeira mas forneça o arroz com feijão.Sem bolsa esmola, vale gás, vale transporte, vale leite, vale paternalismo...Porque vale tudo é a briga da grande maioria para viver no país do futuro.Da ordem, do progresso. Do pensamento, da ação.E a bolsa que precisamos é a "de valores".Dignidade, cidadania, oportunidade, ética.Indepedência? Ou sorte?
Ângelo Portilho

domingo, 7 de setembro de 2008

Esperanças Urbanas. Independentes.

Photo by manu negra
http://www.fotolog.com/manu_negra


Esperanças Urbanas, Independentes.
Ana Paula Perissé*

Vem cá, garoto
eu te dou um trocado
(pretexto, culpabilis?
no estômago da classe média
cafonum-consumericum demens)
e tu, um sorriso
que nos une,
como irmãos
na imensidão de ruas,
sinal fechado
vidas em aberturas.

Vem cá, garoto,tens meu respeito
e te quero muito
muito longe daqui.
(infernum operandi em potência e desrespeito)
Na escola
Na família
No teu lar
crescendo para ser.

Cidadania não mais perdida.
Adquirida.
Direito de meninos,
adultos,
velhos,
negros,
brancos ou
marcianos.

MINORIAS são maiorias no coração de TODOS.
( humanos humanizados pelo elo da ética)

INDEPENDÊNCIA para além
muito além de setembros
em sétimos dias.

De nada.


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pós-Vida



diante da imensidão vazia

e oceânica

imprevísivel

da vida a quem dôo um sentido

errante

mutante

as centelhas me agitam

arrancam-me de mim

quentes e dolorosas ao toque

clamando por uma chance

de nomear

resquícios

sombras
quero aprender a sonhar com o nada

agora

para quando minha hora
chegar

saber que deixarei

as mudanças

mudando

como se a vida de todos os seres

tivessem um pós-vida

ecoando

a revirar a memória

de quem tocamos

de alguma forma.


não sei o quê escrever

quase-revelações

ínfimas ou desnecessárias

colectivas

de mim.


Não é nada de altivo

ou grandioso

tentativa vã

que não me acalma

porque pestanejo diante

da pupila oscilante do mundo

nem mesmo vôo

ou me rastejo

a implorar pelo cheiro da terra

úmida

que será meu manto

no instante final.


(Te amo, seres amados,
inexistentes aqui

cuja pós-vida

entranha-se cade vez mais

naquilo que sou

de teu legado)

Abismo da Beleza Nua

Blue Nude, 1902, Picasso

A José Castello, inspiração, sempre.

"Há um quê de abismo

em cada respiração
como se a dúvida
da Queda
martelasse
para a Vida
em minha sôfrega
existência.

Suspiro de ausências
me preenche
do inútil
que me inventa"


Há um estremecer em nosso interior. Sempre.
Sombras e imagens que se desfazem sem o sabermos
sou uma sombra de mim
em instantes
ou um simulacro de imagem
que não se sustenta sob luz bruxulenate projetada numa parede áspera?

Para quê ser poeta?

Para ler aquilo que ainda está para ser escrito
inútil
se não transformado em sombras de nós.
O mundo é emaranhado de possibilidades de lecturas.
A Ciência lê com razão e técnica coladas num real chapado.
A Magia, o encontro celebratório da vida no cotidiano, lê com alma.
O terapeuta, lê emoções flutuantes entre 4 paredes.

e o poeta
nada lê.
não se propõe
poque sabe que há resquicíos no silêncio inaudito
maldito
que reina
incompreensível
para nós.

E não pergunto à vida
vou à rocha observar seu canto
lasca imprestável
de um zumbido de vida.
Mas o quê existe
insiste
e lá fica a nos rodear
com sua beleza
a imensidão incontida
em nós
e no mundo.

APP

"Antropofágico..."



"antropofágico..."

"as palavras se relacionam comigo de uma maneira tensa
quero explodi-las
até o final da minha vida"
Amor Letal

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Tempo da Ressonância Artística

La Fissure - Rene Magritte

Somos todos seres estranhos, aqueles que não se subordinam ao tempo do Novo Pai Chronos da hipermodernidade.

Resguardamos nossa singularidade mesmo à contemplação da vida intensa e efêmera de uma chama ou de um clarão de um relâmpago. E tais ressonâncias nos rodeiam, afetuosamente, em novas sensações, vontades, lecturas da vida.

Chama-me a atenção o desvario das pessoas que me cumprimentam enlouquecidas, acorrentadas pelo Novo Pai Chronos, como se se lhes fosse uma vergonha parar, sequer, prum minutinho de conversa jogada fora, um dedinho de prosa poética esquecida por um corre-corre de compromissos até mesmo imaginários com a necessária Rainha Soberana Eficácia-Monetária do modus operandi de hoje.

Perde-se o tempo da vida, aquele da emoção mais duradoura que pode brotar em sementes de amizades, amores, lecturas desdobradas em ação efetiva no real. Política.

Estrelas cadentes não têm hora para aparecer tampouco a natureza nos oferece artíficios de câmaras lentas, replays e estatísticas de des-aparecimentos.

Estrelas que caem a toda hora e são esvanecidas pelo não ver, cegueira acumulada de imagens iluminadas pelo nada-não-emancipatório. O nada que reproduz tão-somente o desejo de não-ser acumulando o tempo possível, o lazer, em circulação hipnótica por lojas, mercadorias e shoppings fechados à vida verdadeira de uma gota ainda por cair na calçada já molhada.

Corro o risco de ser-me inútil, desnecessária, não tornar-me rica, mas actora de meu tempo.

Cenário com vários actos, sem buzinas, histerias histéricas que encobrem o não -ver.

Tempo não linear, curvatura da mulher e do corpo do homem amados, territórios imensos a desbravar sem pressa.

Meu tempo é o acender de um fósforo e aquilo que minha memória lembra deste instante a queimar-me como o desejo de amantes que se encontram em instantes de eternidades, infinitamente íntimos do tempo e do espaço.

Experiência qualificada porque vivenciada em cada compasso.

Salvemos nossos intantes de vida não produtivos pela lógica neo-liberal para que o poema retorne com a força imemorial, o rosto de nosso amigo se abra em seu sorriso mais sincero e despreocupado, a arte desabroche em cada minuto mesmo que não gere resultados quantificáveis de alguma estatística perdida em fórmulas-simulacro de algo em que os pseudo-viventes acreditam, ingenuamente ou não.

Servidão voluntária?

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Freud de Havainas

By Frederico José, do Bistro das Artes, Teresópolis


À Ana Augusta Ravasco Moreira Maia


Nunca tive filiação teórica, apesar de alguns autores me sustentarem com argamassa sólida, as mais sutis e delicadas, é bem verdade, mas que me permitem manter-me em pé ( ou de ponta cabeça) com certa propriedade, ma non troppo.

A desfiliação neste caso é minha liberdade para pensar.

Sou frankfurtiana, benjaminiana somente por consaguinidade espiritual, flamenguista, kierkegaardiana, existenciliasta, tropicalista, Gustav Klimtiana, budista iniciante, Manoel de Barros barrista, sei lá mais o quê... Ou nada disso, mais, até mudar de idéia, pois "nem sempre sou da minha opinião" ( Paul Valèry)

Não rezar a cartilha de gurus teóricos não significa adotar um mix de pensamentos desbussolados, numa tentativa vã de abarcar o mundo das idéias com as pernas e se sentir o modernoso filósofo dos dias hipermodernos.

Dá um trabalho enlouquecido conhecer, ler e reler cada um com o olhar da ótica do atravessamento e da interpretação crítica emancipadora Semi-leitores não se permitem tal flexibilidade dolorosa e cansativa.

Não ter um altar teórico concede-me a liberdade de olhar e escrever no registro da suspeita e do assombro, cabe ao generoso lector escolher.

Escolhas com sustentação.

De que fôrma me é permitido avistar um homem com uma insinuação pictórica de um chinelo e chamá-lo de Freud com havaianas?

Heresias autopoiéticas.

Escolhas.

Hoje, não quero o cachimbo e o divã, quero a liberdade de iluminar, às escuras, meu olhar de vagante esteta e ética, à procura da forma e conteúdo fechando uma gestalt mesquinha ou magistral.

Escolha, mas não do sempre igual.

Escolha que exige sustentação. Luto para tê-las.

A psicanálise liberta, outras lecturas também. Por que não um atravessamento náufrago entre elas?

Uma proposta em aberto, inacabada como a vida que pulsa em nossas veias latejantes de sangue.
Ana Paula Perissé