sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Anke Merzbach




De Salvamentos

nestas águas em que
tu te afogas

Eu navego.
( ensaios)

avisto à contrapelo
a prôa autômata
que te rouba o pôr-do-sol

Paisagens ao crepúsculo
te escondem a beleza
de um Outro
despertar

Vá e te afogas...
Salva-te.

Ana Paula Perissé*



sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Driving Miss ... Us


Passei o reveillón ( chique esta palavra...) ou 2 de janeiro ainda é tempo de virada ?( diferença de estilo... mixes etimológicos) assistindo a um filme que me chegou sem esperar.

(aquilo que nos bate à porta, o inesperado, tem um sabor mais portentoso;
hey, não! não estou falando aqui muderninhamente sobre carta de vinhos...)

Mas sobre um filme que canta a amizade.

tão simples assim ( o quê é da ordem do demasiado humano é de uma beleza tão simples, tão reveladora)

Condução. Direção. Abandono.
Perdas. Achados.
Velhice. Decrepitude da embalagem mas amadurecimento das entranhas.

Ele me chegou enquanto refletia sobre a questão de resoluções de ano-novo. O velho clichê havia me abraçado na varanda da minha casa. Deixei-me levar por insigths tão interessantes quanto uma carta da Lua ( tarot...) em ótima posição no jogo.

E os conteúdos me vieram, todos. Meus amigos que celebraram nossa amizade neste mesmo lócus de existência pulsante também.

E de repente, o inefável me vem com um rosto à la Morgam Freeman ou o fraterno Boolie, do filme.

Sim, eu tenho amigos os quais, ao tempo de minha velhice ( sou a que está na Terra há mais tempo, só isso...), me darão uma colher de torta à boca ( porque meu mal de Parkinson ou o quê seja, não vai me permitir tal movimento) no dia do equivalente brasileiro ao Dia de Ação de Graças.

E eu os amo. Como eles são.
E com eles aprendo a ver o filme, a vida, as perdas sob um outro olhar...

eles têm nomes em células minhas

*************************

O bom de um blog como este é também a sensação de privacidade não exibicionista que drive me por estas ondas binárias...

cresça & mutiplique os devaneios'eus meus nossos da VIDA

Foto e poema by Amor Letal

cresça & mutiplique os devaneios'eus meus nossos da VIDA

De Bush para Obama...

“A Força Aérea de Israel lançou um ataque aéreo com aviões e helicópteros contra alvos do movimento islâmico Hamas em toda a Faixa de Gaza às 11h30 locais (7h30 de Brasília) deste sábado, assassinando 225 pessoas e ferindo mais de 200, vítimas do ataque na Cidade de Gaza e em outras cidades e campos de refugiados, principalmente no norte do território"

o epitáfio

sem fio

s'equilibra no abismo

pra dar tempo ao tempo

sem que se saiba

o tempo que o tempo quer"


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

marcas

Imagem by Oliver Follmi

marcas
do continuum
de uma história
plena de agoras
outrora não vividas
irrompem
de forma abrupta
o despertar do qual tanto anseio.

meu passado que não se fez
é AION
tempo mágico
ah! venha tomar-me
de assalto
e à ti me entrego
à acção vindoura
do que ainda me resta
longe de CHRONOS
faminto e brutal

te quiero
como amante
KAIRÒS
desfigurante
vívido,
pulsante
e não linear

como numa brava magia
de Moiras
dançarinas celebrantes da Vida
esvoaçante
desejante
pra nós.

(deixemos uma celebração lunar atemporal ao ano gregoriano de 2009)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"Acaso como impulso criativo"


Esta idéia é de Nietzsche. Esta frase.
Seus desdobramentos, todavia, lecturas mil, podem ser nossas. A genialidade de alguns viventes em eternidade nos permite este tipo de experiência singular.

Tenho muito receio de saber(ilusoriamente) que sei, cair na armadilha desta certeza e me fechar ao acaso.

Nada mais me emocionar se me engessar no aprisionamento de uma linearidade fictícia, como se os cabelos ruivos esvoçantes de uma tela não mais me remetesse à beleza ainda não cristalizada de um pensamento estético a realizar-se.

Tripartizar o tempo em passado, presente e futuro também é reduzir-se ao não movimento elíptico, a uma sucessão de eventos sem ventos, marolas, o indesejado que se aconchega, de repente, à nossa volta.

Gostaria que se abrisse à razão a origem mítica que nos forneceu densidade histórica e subjetiva desde tempos imemoriais.

Gostaria que se abrisse `a estética de hoje uma multiplicidade de possibilidades em desvario, aliada a uma ética não egóica, esta estranha moral em monobloco que arrisca o sempre o mesmo.

Gostaria do acaso à espreita, sempre. O alcance do diferente e do estrangeiro, do amor a pequenas causas e seres, a pequenez harmoniosa com o Uno regente de uma razão sensível.

Hoje, gostaria da capacidade de sermos todos afetados por afectos, paixões , pela experiência cantada do Outro. Sabores que nos levam feito náufragos num raro instante de desejo dionísiaco.

Queria cabelos esvoaçantes chacoalhados pelo necessário impulso que nos desaprisiona de nós.
Ardei por dentro
e deixai que a chama
perturbe
estranhe
remexa!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Errância

Foto by Manu Negra
http://www.manunegra.blogger.com.br/


errância
metralhadora de versos livres
tiros per-ditos
não sou poetisa

(de nós)

no dízimo que não pago
à pilhagem alheia
no desprezo
ao gerúndio dos tempos que não ficam

(raízes de nada
em suspensões)

desvitalizo-me, mesmo assim
quantos vampiros nos cercam?

às favas
quem gorjeia
com pança cheia
às custas de vidas sofridas

ao inferno
quem finge
ou não sabe
da vida que é.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pontes


deixem que pontes
fascinem a cidade nua.


Passageiros
quando de si
a uma beira
chegam
para inventar desejos.


Pulsar em trânsito
encontro de espectros
sem aviso.

(cada onda que em ti bate, estremece vida que se desloca)

domingo, 23 de novembro de 2008

Loja de Sonhos

By O. Heize*

Loja de sonhos

O.Heinze

Roubei num tempo distante

uma faixa de praia e de mar

e guardei numa concha grande

de onde escuto o cantar encantador:

das sereias libertador:

das gaivotas namorador:

das baleias das ondas: contra ilhotas.

E enquanto a maré vai fluindo

na praia de minhas lembranças

sinto um calor me cobrindo

da brisa salgada que dança.

Revejo um pesqueiro moroso

empurrado pela calma do acaso

num mar tão preguiçoso de azuis aonde vou raso...

Reparo na praia tão cheia

crianças brincando, vendedores cantando

assobios e risos na areia

e minha fantasia namorando...

Eis que voltando para a realidade

essa fantasia continua fantasia

meia mentira, meia verdade

guardada nessa concha vazia...
* Heinze é artista plástico, poeta e escritor paulista. Amigo. Cúmplice. Comparsa de inspirações. Querido. Admirado. Necessário na paisagem artística de nossa terra.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Uma Livraria Fechada

Santa Sabedoria by Sergio Niculitcheff

A profusão de seres homo-mercato-encantatum que circulavam freneticamente pelos corredores de um shopping center serrano, no estado do Rio de Janeiro causa-me perplexidade. Ainda. Sinal de vitalidade pesudo-intelectual?


Era um domingo de sol e a circulação frenética destes viventes felizes em seu desejo de adquirir sonhos como se presentes num portal metafísico, com uma força de empuxo magistral, colocassem todas as pulsões de um ser-humano no simulacro de dignidade das aleias despersonalizadas no tal neo-templo hipermoderno, jardins suspensos de objectos.


Ao final de um corredor, transeuntes desfilam histericamente por uma livraria fechada. Ninguém desacelera seu pulso para percebê-la ou reconhecê-la como facto digno de dor. Passam em passadas rápidas, pressa, agonia de comprar em dia de descanso, contemplação...


Escura, empoeirada, vestígios de uma vida comercial destinada à extinção. Eu enfio meu nariz na vitrine e deixo meu rastro de uma rino-escultura de poeira que se desfaz em minutos. Uma mulher de seios fartos, saltos e portadora de sacolas mil olha-me de
soslaio e a meu nariz com poeira cinza de vitrines ancestrais...


Penso no desejo que uma livraria me desperta. E o facto de desconhecer o endereço da biblioteca municipal desta localidade frustra-me ainda mais. Que faço eu com minha pulsão libinal de lecturas e de passagens?


Os cidadãos ( ainda?) perdem-se de Eros esfregando-se pelo andar e olhar nas vitrines vivas vazias de sonhos ou insinuações dionisíacas de festivais com bacantes...


Uma lágrima é minha satisfação pulsional.
Onde fica o lócus de desejo neste mundo?


No sexo sem erotismo?
Na rapidinha sem o olhar?
No vestir uma pele que não pulsa?
Na mercadoria vazia de signos?
No techno-colecionador?
No flâneur-fake de shoppings centers?
No ideal desrealizado de trabalhar para acumular?


O inútil é o vazio que me dignifica. E a suspeita, a vida desperta que me insinua.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Schönberg* Das Chorwerk

Two Canons
( Texts after Goethe " West-östlicher Divan)

WHEN THE DEEPLY DEPRESSED LAMENT
(taken from: Hikmet Naneh - book of proverbs)

When the deeply depressed lament
That help, hope is in vain,
Again and again a friendly word
Will always remain a confort.

ALAS, THERE ARE SO MANY SENSES
(taken from: Suleika Naneh - book Suleika)

Alas, there are so many senses!
They bring confusion into happiness,
When I see you I wish I were deaf,
When I hear you I wish I were blind.


* Arnold Franz Walter Schönberg, (Viena, 1874 — Los Angeles, 1951) foi um compositor austríaco de música erudita e criador do dodecfonismo, um dos mais revolucionários e influentes estilos de composição do sé. XX.
Suas primeiras obras, apesar de ligadas à tradição pós-romântica, já prenunciavam um método composicional inovador, que evoluiu para a atonalidade e, mais tarde, para um estilo próprio, o dodecafonismo. Schönberg foi também pintor e importante teórico misical, autor de Harmonia e Exercícios Preliminares em Contraponto.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

(BrinCADEIRINHAS)



By Amor Letal

I- retire o AMAR da amargura

mesmo que o poeta afirm’em terra FIRME

“nunca é doce morrer no mar "

TSUNAMIS à parte

VIVER é melhor que sofrer

em qualquer Lugar



http://www.fotolog.com/manu_negra

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Perdida na vida

Lost in Translation



Lost in Translation by Joanna Zjawinska

http://www.joannazjawinska.com/


Perder-se enquanto os outros
vivem
ou se acham
quase inteiros

quero perder-me
por um pouco de vida
em fragmentos
transitar-me
passar
friccções com doses de afectos
mutantes
díspares
sem sentido.

quero perder-me na tentativa
de traduzir a sombra do mundo
esquecida
diante do espelho ancestral
de sermos apenas
nós


( as velas se apagam e o candelabro se ilumina no escuro,
vestes nuas)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tourada Não Alucinógena

tourada de sonhos
escorregam sangue
amore de vermelho
te quiero
sem negar-te a maldição

que venha o inefável
encontro entre pulsões duais
unidas em Thanatos
verde em vermelho
gotas
dorsos e seios
em vestes esvoaçadas
de suor nocturnos em mim

Ave!
de quantas partes me sou
escondidas de mim?
Maya
(não mais)
até próxima descoberta insana

Touradas
vários touros amáveis
atrás de véus
encobertos

que saiam!
em direção à renda macia
bordados em bordeaux
no liquidificador de areias em nós.

quem de si teme tanto?
sometimes

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

fragmentos da eliucidez



By Somosvóis / Amor Letal


(...)

a ira de Zeus açoita Pandora sobre a Terra qual vendaval...

Inside

náufrago’ mar é morto -1 caixão solitário à falecida paixão de Nietzche
no máximo algo além da última vírgula’ntes do final
& o que seria o fantástico na literatura?

... Closed

a’situações de ambigüidade nos deixam perguntas: “Realidade ou Sonho?”
qualquer acontecimento que fuja às leis desse mundo
o fantástico ocorrerá nesta incerteza’hesitação às leis naturais

“o leitor hesita entre as possibilidades ou a hesitação fica a cargo da personagem?”

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ciber-Poéticas ou O Suco de Imagens Imemorial Upgraded

Paolo Uccello- St-George and the Dragon circa-1470

Quando a noção de pespectiva surgiu na Renascença novas formas de ser e estar no mundo também foram inauguradas nesse continuum não linear - elíptico ( redundância #1) que é a vida de cada existente.


Individualismo,

transgressões,

reminiscências, rememorações, fragmentos de histórias relidas e contadas sob outras perspectivas, segredos insinuados de um proto-liquidificador.


As imagens nos constituem também em reverso ao longo da nossa vida ancestral de existentes históricos ( redundância #2). A estética nos dá vida assim como a parimos. Relação intrínseca mesmo no escuro das cavernas das ilusões neo-liberais desqualificadoras de auras.


Como fantasmagoria saudável, a imemorialidade das imagens, dos gestos e da palavra nos rondam e nos fazem seguir nosso precurso rizomático como viventes em iminência de resgastes, de caça e de novas apropriações.


E quando o prefixo re entra em cena, levanto as cortinas para a questão da necessidade de se entender metafisicamente a essência tecnologia ( a fôrma com que a técnica se desvela nos dias atuais).


Re poderia apontar para um necessidade de se compreender o quanto a distância do entendimento da técnica e de suas novas possibilidades nos tornam acriticamente encantados. Re-começar para não sucumbir ou não se deixar engolir pelas ondas de tecnicismos desumanizantes.

Neste grande suco fragmentário de vivências, sinais, afetos, imagens, consumo, textos, sub-informações, estamos desde há muito sendo transformados por forças as quais, não tão exteriores a nós, ficam desamparadas de nós ao ganhar um peso ou uma densidade de um modo quase autóctone. Com nossa permissão.

É bom escrever sem compromisso; por isso tenho este blog que se cria a partir de uma codificação de sinais de 0/1 que passa batida ao meu entendimento. Até que ponto sou uma criadora que não se transforma por algorítmos sem o saber?

A perpectiva do aparecimento de uma tempestade estampada na tela ou a possibilidade de esquinas outras nas telas do Renascimento chacoalharam a história um bocado.

Como viventes chacoalhados por neo-torrentes ancestrais também quero o dever e o direito de desvelamentos. Não me utilizo da técnica para fazer tão-somente ciber-sucos sem sabor.

E qual é a essência deste sabor?

Por Yedra Ardey

By Paul Serusier


A solidão em grupo já há tempo.

Encontrou um ritual.

Todos esboçam filosofias de vida,

Inventam códigos,

Aplicando-os ao acaso.

As idéias se tornam mercadorias

De troca... talvez ninguém

Ouça as lições alheias.

Voltarão para casa saciados

E sorridentes

Para se reencontrar de novo

A fim de repropor

Outros aperitivos de noções.


EUGÊNIO MONTALE

Blog Sobre o Nada

sábado, 27 de setembro de 2008

A Invenção da paisagem por Anne Couquelin e André Lemos

Momento Fundador: "A Tempestade" de Giorgione, 1505.

Paisagem? virtual no Second Life


A noção de paisagem em Anne Cauquelin (A invenção da paisagem, Martim Fontes, SP, 2007).
Escrito por André Lemos.

Paisagem é uma invenção a partir da perspectiva ("per scapere" - o que se abre), que inaugura um novo regime ótico. Não havia noção de paisagem entre os filósofos gregos já que a imagem era apenas uma forma de fundo para narrar, para contar "istorias" sob o signo do logos, da razão. Não há aqui a visão do que desponta. Isso só passa a acontecer com o regime moderno, com a perspectiva, com o ponto de fuga que permite, aí sim, que se veja a paisagem. Ela é uma construção mental dada pela possibilidade de "ver", criada pelo artifício da perspectiva.

A paisagem é uma invenção de uma técnica do olhar. Segundo Cauquelin:"(...) Vemos em perspectiva, vemos em quadros, não vemos nem podemos ver senão de acordo com as regras artificiais estabelecidas em um momento preciso, aquele no qual, com a perspectiva, nascem a questão da pintura e a da paisagem? (p. 79). "Esse 'mostrar o que se vê' faz nascer a paisagem, a separação do simples ambiente lógico (...) . A istoria e suas razões discursivas passam para o segundo plano: e, veja, falamos de 'planos', de proximidade e de longes, de distancia e de pontos de vista, ou seja, de perspectiva" (p. 81-82).É o enquadramento que inspira a ordem. A "janela" que enquadra "é indispensável à constituição de uma paisagem como tal. Sua lei rege a relação de nosso ponto de vista (singular, infinitesimal) com a 'coisa' múltipla e monstruosa" (p. 137).Sobre as paisagen urbanas, afirma Cauquelin: "emolduramos, fazemos da cidade paisagem pela janela que interpomos entre sua forma e nós. Numerosas vedute, uma esquina de rua, uma janela, um balcão avançado, a perspectiva de uma avenida. O prospecto aqui é permanente. A cidade participa da própria forma perspectivista que produziu a paisagem. Ela é, por sua origem, natureza em forma de paisagem." (149). Mais ainda, "a paisagem urbana é mais nitidamente paisagem que a paisagem agreste e natural...sua construção é mais marcada, mais constante, ainda mais coagente. Ali tudo é moldura e enquadramento, jogos de sombra e de luz, clareira de encruzilhadas e sendas tortuosas, avenidas do olhar e desregramento dos sentidos" (p. 150).

Com as novas imagens digitais, não haveria mais paisagem e voltaríamos a um registro visual pré-perspectivista, já que o que aparece como natureza é a performance do nosso conhecimento, do protocolo, do algoritmo. Não há assim o 'ver', mas o deleite do conhecimento, da "istoria" dos objetos destacados de um fundo que não existe como fundo: "temos somente a imagem, transmitida por câmeras, dados digitais em monitores, sem ponto de fuga, e ilegível, até mesmo indecifrável para quem não estiver de sobreaviso (...) podemos apenas perceber que intelectualmente que há, sem dúvida, 'algo a ser percebido' (...) a própria noção de paisagem é desmontada" (p. 179).Vejamos que é bem essa a sensação que temos quando apreciamos uma obra de arte eletrônica onde a explicação e o 'modo de uso' deve ser explicitado para a sua fruição. Trata-se assim de uma 'segunda natureza', o nosso "conhecimento" algoritmico e não do ver. "A paisagem, com a imagem digital, não está mais contra natureza, isto é, em acordo constratado com seu fundo, não se apóia mais na verdade natural que revela ao mesmo tempo em que oculta, dada contra, em troca de, equivalente a... É uma pura construção, uma realidade inteira, sem divisão, sem dupla face, exatamente aquilo que ela é: um cálculo mental cujo resultado em imagem pode - mas isso não é obrigatório - assemelhar-se a uma das paisagens representadas existentes. Basta estabelecer as leis para tanto" (p. 180-181).Por exemplo, as imagens de síntese na arte eletrônica ou o "Second Life" podem ser exemplos claros dessa ausência de paisagem (de uma "realidade inteira"). Essas paisagens virtuais são assim "concepções" realizadas por um programa, a "autocelebração de nosso poder de concepção" (p. 183). Com as imagens digitais de síntese e mundos 3D simulados, estaríamos retornamos a um esquema visual semelhante ao da Idade Media ou Bizâncio, onde "a qualidade simbólica dos objetos representados determinava a situação, a grandeza e as relações que eles mantinham entre si. Nenhuma 'paisagem' - entidade de ligação autônoma - vinha preencher o espaço intersticial entre as figuras (...). Nessas condições, a paisagem, tal como a praticamos há 500 ou 600 anos, seria um parêntese em uma história das formas perceptivas...sob a condição, claro, de que essas 'novas imagens' tenham alguma chance de transformar nossa aparelhagem perceptiva" (p. 184).