sábado, 27 de setembro de 2008

A Invenção da paisagem por Anne Couquelin e André Lemos

Momento Fundador: "A Tempestade" de Giorgione, 1505.

Paisagem? virtual no Second Life


A noção de paisagem em Anne Cauquelin (A invenção da paisagem, Martim Fontes, SP, 2007).
Escrito por André Lemos.

Paisagem é uma invenção a partir da perspectiva ("per scapere" - o que se abre), que inaugura um novo regime ótico. Não havia noção de paisagem entre os filósofos gregos já que a imagem era apenas uma forma de fundo para narrar, para contar "istorias" sob o signo do logos, da razão. Não há aqui a visão do que desponta. Isso só passa a acontecer com o regime moderno, com a perspectiva, com o ponto de fuga que permite, aí sim, que se veja a paisagem. Ela é uma construção mental dada pela possibilidade de "ver", criada pelo artifício da perspectiva.

A paisagem é uma invenção de uma técnica do olhar. Segundo Cauquelin:"(...) Vemos em perspectiva, vemos em quadros, não vemos nem podemos ver senão de acordo com as regras artificiais estabelecidas em um momento preciso, aquele no qual, com a perspectiva, nascem a questão da pintura e a da paisagem? (p. 79). "Esse 'mostrar o que se vê' faz nascer a paisagem, a separação do simples ambiente lógico (...) . A istoria e suas razões discursivas passam para o segundo plano: e, veja, falamos de 'planos', de proximidade e de longes, de distancia e de pontos de vista, ou seja, de perspectiva" (p. 81-82).É o enquadramento que inspira a ordem. A "janela" que enquadra "é indispensável à constituição de uma paisagem como tal. Sua lei rege a relação de nosso ponto de vista (singular, infinitesimal) com a 'coisa' múltipla e monstruosa" (p. 137).Sobre as paisagen urbanas, afirma Cauquelin: "emolduramos, fazemos da cidade paisagem pela janela que interpomos entre sua forma e nós. Numerosas vedute, uma esquina de rua, uma janela, um balcão avançado, a perspectiva de uma avenida. O prospecto aqui é permanente. A cidade participa da própria forma perspectivista que produziu a paisagem. Ela é, por sua origem, natureza em forma de paisagem." (149). Mais ainda, "a paisagem urbana é mais nitidamente paisagem que a paisagem agreste e natural...sua construção é mais marcada, mais constante, ainda mais coagente. Ali tudo é moldura e enquadramento, jogos de sombra e de luz, clareira de encruzilhadas e sendas tortuosas, avenidas do olhar e desregramento dos sentidos" (p. 150).

Com as novas imagens digitais, não haveria mais paisagem e voltaríamos a um registro visual pré-perspectivista, já que o que aparece como natureza é a performance do nosso conhecimento, do protocolo, do algoritmo. Não há assim o 'ver', mas o deleite do conhecimento, da "istoria" dos objetos destacados de um fundo que não existe como fundo: "temos somente a imagem, transmitida por câmeras, dados digitais em monitores, sem ponto de fuga, e ilegível, até mesmo indecifrável para quem não estiver de sobreaviso (...) podemos apenas perceber que intelectualmente que há, sem dúvida, 'algo a ser percebido' (...) a própria noção de paisagem é desmontada" (p. 179).Vejamos que é bem essa a sensação que temos quando apreciamos uma obra de arte eletrônica onde a explicação e o 'modo de uso' deve ser explicitado para a sua fruição. Trata-se assim de uma 'segunda natureza', o nosso "conhecimento" algoritmico e não do ver. "A paisagem, com a imagem digital, não está mais contra natureza, isto é, em acordo constratado com seu fundo, não se apóia mais na verdade natural que revela ao mesmo tempo em que oculta, dada contra, em troca de, equivalente a... É uma pura construção, uma realidade inteira, sem divisão, sem dupla face, exatamente aquilo que ela é: um cálculo mental cujo resultado em imagem pode - mas isso não é obrigatório - assemelhar-se a uma das paisagens representadas existentes. Basta estabelecer as leis para tanto" (p. 180-181).Por exemplo, as imagens de síntese na arte eletrônica ou o "Second Life" podem ser exemplos claros dessa ausência de paisagem (de uma "realidade inteira"). Essas paisagens virtuais são assim "concepções" realizadas por um programa, a "autocelebração de nosso poder de concepção" (p. 183). Com as imagens digitais de síntese e mundos 3D simulados, estaríamos retornamos a um esquema visual semelhante ao da Idade Media ou Bizâncio, onde "a qualidade simbólica dos objetos representados determinava a situação, a grandeza e as relações que eles mantinham entre si. Nenhuma 'paisagem' - entidade de ligação autônoma - vinha preencher o espaço intersticial entre as figuras (...). Nessas condições, a paisagem, tal como a praticamos há 500 ou 600 anos, seria um parêntese em uma história das formas perceptivas...sob a condição, claro, de que essas 'novas imagens' tenham alguma chance de transformar nossa aparelhagem perceptiva" (p. 184).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Existência Como Encontro

By Jack Vettriano


"Escrever, pensar e ler. Fazer o caminho contrário é outra forma de percorrer o mesmo caminho. Habitualmente, leio, penso e escrevo. Mas a rotina é a rota da botina. Dar a rasteira na rotina, e escrever, pensar e ler. Escrever sem pensar, pensar sem ler e, então ler outra vez. Reler o relido."

Gabriel Perissé

http://www.perisse.com.br/


Quando meu pai faleceu, fez-se silêncio estranho. Escrever era-me necessário, assim como pensar, sonhar, relembrar e ler. A estranheza da naturalidade da vida está impressa nessas ações que movem mais directamente o espirito. Tentativas mundanas de minha parte de contactos extra-corpóreos ou metafísicos.

Todavia, a vida não tem muita magia. Tampouco desejo esta pseudo-magia espetaculosa dos dias actuais. Prefiro observar o caminhar de formigas quando tomo meu café com leite todas as manhãs e atormentar-me pelo facto de escrever idiossincrasias sem valor mesmo sabendo que o destino me é a não - lectura. Isto sim pode ser mágico. Passar incólume sem falar demasiadas asneiras egóicas. O silêncio me significa. Dignifica.

O facto é que meu pai, além de uma riqueza de lembranças elaboradas e recontadas em meu livro de alma quase sempre, deixou-me um pequenina biblioteca. Nela, encontro um primo. Um professor. Um livro seu. Com dedicatória e tudo, com vontade de encontros.

Por internet faço contato. Nos encontramos. Nos conhecemos ou nos deixamos próximos à possibilidade de sermos familiares ou amigos ou colegas ou existentes solidários. Seu trabalho como professor e escritor trouxe-me significados novos.

Professor Gabriel Perissé mobiliza minha vontade e me faz conceber a mundanidade da vida como a possibilidade de encontros. Minha existência sai ganhando fôrmas novas e eu sinto uma vontade ingênua de alardear facto tão corriqueiro aos quatro ou cinco ventos ( porque criamos mais um...). Eu leio Gabriel, leio seus rastros neste mundo, ele é Homem que deixa rastros.

A intensidade me constitui. E o caminho das formigas se faz a cada dia por paredes diferentes.

Meu pai apresentou-me a um parente enquanto eu o construía como um novo pai imaterial pra mim. Ainda posso ganhar presentes dele. E sua existência que cessou por aqui ainda é insumo para novos encontros.

A vida não é mágica. É dolorosamente bela, estranhamente misteriosa. Fere a cada instante e muda e irrompe.

Amo, cada vez mais, nada ser . Sou apenas uma vivente com encontros a existirem. E eu os faço.


Ler e Escrever

Ana Paula Perissé*

Todo mundo se quer artista
poeta
como se num fluxo divino
palavras decaíssem expulsas de paraísos interiores.
Escrever o impensável
o quê nunca foi lido se faz?
Não , não quero mais pairagens verdes
mornas
quietudes pastéis
a vida é também o último espirro
de um vivente
à deriva
largado
sem IR
e as lecturas que nos constituem enquanto artistas(?)
é abnegação de nossa genialidade
fake
para ouvir o som sutil
que se captura
Em Busca do Tempo Perdido.
Não quero poesias róseas de auto-ajuda.
Quero sorver a entranha da terra
através de relíquias
já escritas
ou detalhes mundanos
registros de experiências
sem sentido por hora.

domingo, 21 de setembro de 2008

Lançados em Bordeaux

Promenade By Marc Chagall


Eles são viventes náufragos
lançados
à deriva
e fazem da água uma ponte
para suas vidas errantes.

Condutores sem o saber
fazem do nado
quase nada
em mergulho abissal.

Insignificam cada onda
e cada murmúrio
num silêncio indizível
pleno de gritos.

Reverberam à margem
não chegam
não querem
quando causam susto
aos que existem
de um lado de cá
de lá
entes ausentes das metafóras
da ousadia
de querer conhecer.

Eles estão
são ermos
do nada
em terra prenhe de cada.

Aqui, as ondas são borbulhas
de vinho tinto
em vermelhidão
e as frases se esfregam com o ardor
dos amantes embriagados.


Nervura, gozo e fervor.


Ana Paula Perissé*

Ivo Viu a Uva. Em Angkor.


Quando Ivo viu a uva em sua plenitude de fruta ou de metáfora ( como irei saber?), o silêncio desabou sobre mim.

Tudo visto e escrito sob a fôrma correcta. E os pontos finais sempre me anunciam uma nova jornada a ser percorrida. A quem mais?

Com a ingestão de apenas uma uva estragada, Ivo foi parar no SUS com diarréia, forte dor abdominal e delírios de perseguição. Sua história mediana, de cidadão normal e doente com sintomas de razoável diagnóstico não interessa a ninguém, tempos desumanos... A não ser a malucos por lecturas trash em dias de domingo com chuva.

Sendo assim, talvez possa captar sinais e nuances de instantes efêmeros, barulhos constituintes de silêncios normóticos e, quiçá, continuar a escrever sua história.

(Autores farsantes necessitam de desculpas e de convencimento de uma meia dúzia de um ou dois lectores lunáticos.)

***
Ivo foi atendido na emergência por conta de seu estado de extrema fraqueza e da presença de uma vaga. Não fôra uma uva, com certeza.

Desfalecendo, o soro enfiado em uma de suas veias lhe injetou uma dose de rubor em sua alma que continuou em seu caminho, já muito antes iniciado, de percorrer as florestas do Camboja até sua terra natal, Angkor Vat.

Nascido nesta região no ano de 946, uma metrópole que estava em seu apogeu, com riquezas deslumbrantes e governantes que concentravam todo o poder. Ivo era um aprendiz de sacerdote que se ocupava com a plantação de arroz de sua comunidade. O excedente era vendido a preço reduzido.

Os sacerdotes que o rodeavam, poucos, é bem verdade, posto que sua posição social não demandava mais atenção de ninguém, a não de ser daqueles que abraçavam seu ofício com o verdadeiro afeto caridoso para com o outro, não compreendiam a origem de seu mal. Alguns rituais foram realizados, mas Ivo continuava desfalecido apesar dos banhos específicos. O quadro se configurava muito nebuloso pois estava inconsciente para relatar se fôra uma visão ou uma ingestão.

Encontrado caído no arrozal, com uma cesta de sementes violáceas. Suas pupilas estavam dilatadas e restos de tremor percorriam sua fronte.

A visão ou a ingestão de uma imagem pode ter seus malefícios ou benefícios à sombra. A cura depende de uma anamnese profunda, quase histórica, para além do individualismo actual. Ivo é reminiscência de tantas memórias assim como seu vizinho, um proto-normopata.

Uma uva roxa, de sabor agradável, é resultado de uma virtualidade, semente da vida. Os sacerdotes diante do mistério da origem retomam suas inquietações e desentendem-se quanto ao tratamento. Ivo era trabalhador forte, importante para a comunidade.

****

Com a desconfortável percepção da desatenção da equipe médica, ele sofria quieto. Estava abandonado no chão do corredor de um hospital público, com o soro a despencar suas últimas gotículas. Preso em seu corpo flagelado pela fraqueza, Angkor ficava cada vez mais distante. Vira a uva e o largaram ali, na esperança que cedesse seu lugar o mais breve possível.

Dar lugar a quem? Qual seria o próximo com um ponto final instaurado pelo non-sensus da vida quotidiana banal? Em Angkor, era importante à sua comunidade, o final de qualquer evento era quase um ritual de iniciação à uma abertura elíptica. Aqui, Ivo se perdeu em sua incompletude mal compreendida.

****
Knervi havia chegado à porta do santuário quando o servidor público barrou-lhe a entrada: " não há espaço para acompanhantes, dona."
A esposa de Ivo estava, naturalmente, apreensiva quando ao estado de saúde daquele ser que ainda amava. O absurdo sondava suas vidas desde tempos imemoriais. Haveria tido um início, origem com miragem de significações, para algum vivente?
Fazia tempos que os homens sobreviviam em grupos.
Talvez, Ivo não vá despertar de seu desfalecimento ancestral. Quem saberá? Ondas de imponderabilidade chacoalhavam Jandira. Ela pressentia, de alguma forma. "Alucinações andam por aí, à espera de alguma porta de entrada", pensou.
A van estava lotada, aquela hora da manhã.
E as uvas, fora de época.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Janine

Vampire by Munch

A Baudellaire e a Theóphile Gautier , que me perdoem a ousadia. 1989, meu primeiro conto.


A noite úmida e fria cedera lugar ao esplendor de uma manhã ensolarada. Sim, meu estado de espírito assim lhe conferia advérbios de máxima intensidade. Esplendorosamente, mas densamente iluminado. aquele dia, em particular, parecia me perturbar. O sol sempre tivera um privilégio de me inquietar, é bem verdade, de um modo diverso das sombras, um estranho chamamento por ousadias, às claras. Riscos cujas zonas sombrias nada mais clareiam.

Esta luz que durante o dia incendiava-me por dentro, contrapunha-se ao meu mais recôndito desejo, obscuro, de mergulhar nos sonhos e visões nocturnas, que percorriam minha alma e mente, em ondas de entranhas. Sonhos que, com poucas referências à realidade de minha vida ( não seria essa a essência de sonhar, sem âncoras, flutuando em pisos escorregadios de inconscientes?), aos dogmas e crenças com os quais sempre tive de conviver, pareciam a realização de alguns dos poucos anseios que eu me permitia conhecer.

Aquela pequena aldeia, gélida e soturna, embora ainda cálida por um dia de sol, deserta de seres urbanos, povoado por mitos, emblemas e enigmas de um rico imaginário absurdamente irreal para a razão iluminista, despertava-me um pouco de vivacidade que ainda ousava participar do meu caos interior. Ali, aqui, eu procurava apenas existir, simplesmente. Felicidade? Alguns instantâneos. Doce exílio voluntário que me atirava de encontro a mim mesmo, tal como uma barata num conto de Clarice.

O café estava apetitoso. A fome aparecia. O desejo. Os croissants bien chauds preenchiam-me de um prazer singular. Sentia-me um semi-deus num panteão gastronômico um tanto decaído, luxúrias para a circular de minha barriga. Uma caminhada na companhia de um vale de eucaliptos poderia refrescar o bolo estomacal que se fazia em mim. Sob a bruma ainda presente, resquício do frio da noite, extirparia glicídeos, quiçá, temores e estranhas memórias independentes.

Com um pouco de coragem, deixei a aldeia para trás. O mesmo movimento que realizei quando resolvi dar um fim ao torvelinho incansável da cidade grande, a-mitológica, asséptica e brutal, sometimes. Fuga de relações pessoais, conflitos, assassinatos metafóricos de uma multidão de existentes; tudo isso metido num mix imagético e emocional, garantia-me o mínimo de relaxamento, possibilidade de desintoxicação das idéias viciosas que o tempo e a cultura encarregaram-se de impregnar-me. Um utopista, com visões de Walden, renascido ou reencarnado? Sei lá.

A natureza povoava aquelas montanhas emanando paz de suas entranhas. Um ambiente que emoldurava dizeres etéreos aos forasteiros: "hey, a vida aqui pulsa de uma forma diferente, escute o barulho no silêncio, a unidade em cada pedra, integridade de pedaços em quebra-cabeça único". Reflexo de algo escondido no fundo de todos os seres, desconhecido à consciência, mas inquietantemente real.

Como ser racional e imune às histórias mágicas desta região? Seres nocturnos e semi-mortos agora acompanham-me em meus trajetos, à espreita.

Incrível e re-confortante é não dar-se conta de como predisposições psicológicas nos arremessa para o convívio desnudo com mitos e lendas.
Não sou mais um pesquisador , não sou mais nada, não sou. Dou luz e tomo posse das minhas fantasias.

Sentei à beira de um riacho, tirei minha roupa apesar do frio e resolvi imergir deliciosamente para o silêncio. O Outro sempre e fascinou e e me sentia bem-vindo àquelas terras, àquelas águas.

Um vento lambia meu corpo e arrepios de pele eram-me amantes cheias de desejos, sensações estranhas à linguagem humana, prisão de palavras que desconhece as esquinas do nosso pequeno universo. Tábua de esmeraldas...

Nesse torpor que me arremessava para um além das coisas, percebi um movimento, ecos ao longe de alguma vida que se aproximava lentamente.

Ela era bela, estonteantemente pálida, eu a reconheci. Sem hesitação, me aproximei e deixei-a falar. O silêncio que se seguiu preencheu-me com um fio de compreensão . Olhava-a, descobrindo os detalhes de seu rosto que não eram revelados em minhas visões. Todavia, a sofreguidão e a inquietude que mesclavam-se em sua brancura azulada, incomodava-me. Qual razão para tamanho sofrimento? Respostas que poderiam rondar minha mente prenhe do medo de um novo, covardia demasiada humana, impedia-me de capturar sentidos.

Subitamente, aquela forma feminina, de algum temp(l)o distante, fez um sinal para que a seguisse em seu particular caminho. A cada passo, revelações de novas fôrmas, cores, atitudes, vida.

"- T., não sabes o quanto necessito de ti. E tu, meu caro, de mim. Tantas tentativas e tantas recusas tuas. Deste-me uma chance, hoje."

E a cada palavra sua eu sentia frêmitos e ondas do recém-descoberto-rememorado fazer ou voltar como parte de mim. Eu me permiti o estranho, em sua companhia. Janine era imprevisível e entregue ao fluxo do devir circular ( tempo espiral?).

Vivemos o máximo de tempo juntos.

Seus hábitos eram-me muito estranhos. Sua fragilidade mantinha-me em estado de confusão; sua sensibilidade e fraqueza física eram pontos obscuros num oceano de nada.
Também distante estava da minha razão. Desde o encontro com Janine senti sutis mudanças em minha forma de ser; eu era dois homens que não se conheciam um ao outro, já mais não mais conseguia captar a linha tênue do que é realidade ou ilusão, o real sempre me fôra ficcionalizado, agora ainda mais. O homem quase místico e apaixonado ria-se do homem sisudo-farsante que corria atrás de um significado para fazer Ciências. Mesmo conservando uma leve nuance desta percepção dual de existências em um, o medo da loucura parecia perseguir-me como um punhal sem piedade.
Quanto mais exatidão explicativa procurava, mais permissão obtinha para deixa-me embriagar pela suavidade do corpo daquela mulher, enigma vivo que despertava desconfianças na conservadora população local.
A vida que pulsa em veias nossas fez-se assim.
O cálice de vinho em mãos, por um instante, lembrou-me do ritual católico pleno de culpas. O sangue ou o vinho escorrendo pela face despertava-nos desejos. O olhar de Janine era distante, doente, e ela não parecia estar presente. Fora de cena ou muito dentro dela. Não sei.
A brancura doentia em sua face confundia-se com sua veste exalando um suave perfume de temor. Morte, sombra em seu rosto, avivou o estranho amor que sentia por aquela criatura. E eu a abracei com medo da perda. Silêncio em respirações compassadas, ritmo lento. Com ternura em seu olhar ela feriu meu rosto, longas unhas sem esmalte, agora avermelhadas, sua tez encontrou coloração rósea enquanto sorvia o que a mantinha viva.
Um prazer intenso nos transportou para longe.
Estava me matando em tudo que deixei para trás. Parte de uma vazio se desfazia. E o encontro com esta morte deixou-me avermelhado de paixão real.
As taças sempre se quebram quando o vinho não mais se esgota.
E as videiras em nós brotavam a cada gozo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sobre Independências. Por Ângelo Portilho, grande amigo.


É Pedro... Naquele dia 7 você, a bordo do jato imperial, fez alguns contatos pelo celular de terceira geração.No seu notebook wireless, entrou no site de relacionamentos e criou a comunidade "Brasil Independente".Mais de 183 milhões de membros, sucesso absoluto!Tópicos das belezas naturais, das mulatas que não estão no mapa.Das loiras, das ruivas, das índias, das morenas.Do carnaval, do futebol, da cultura, da esperança.Da direção, da lei, do julgamento...Da mais completa tecnologia embarcada que nos libertou da matriz!
Depois de 508 anos, estamos nós aqui, evoluindo e querendo que as águas do rio Ipiranga comportem todas as lavadeiras que delas dependam para trabalhar.Que as escolas de pau a pique recebam os meninos e meninas que fizeram u'a maratona na estrada de terra para estudar.Calçando um par de sandálias trocado por um voto, vindos de uma casa de taipa iluminada à lamparina.Que os campos de várzea revelem talentos no esporte.Que os hospitais e o atendimento do Sistema Único sejam saudáveis.Que os ladrões de galinha estejam seguros por não precisarem do nosso famoso jeitinho para se alimentar.Que a terra onde se planta, esta vastidão de terra, não seja poeira mas forneça o arroz com feijão.Sem bolsa esmola, vale gás, vale transporte, vale leite, vale paternalismo...Porque vale tudo é a briga da grande maioria para viver no país do futuro.Da ordem, do progresso. Do pensamento, da ação.E a bolsa que precisamos é a "de valores".Dignidade, cidadania, oportunidade, ética.Indepedência? Ou sorte?
Ângelo Portilho

domingo, 7 de setembro de 2008

Esperanças Urbanas. Independentes.

Photo by manu negra
http://www.fotolog.com/manu_negra


Esperanças Urbanas, Independentes.
Ana Paula Perissé*

Vem cá, garoto
eu te dou um trocado
(pretexto, culpabilis?
no estômago da classe média
cafonum-consumericum demens)
e tu, um sorriso
que nos une,
como irmãos
na imensidão de ruas,
sinal fechado
vidas em aberturas.

Vem cá, garoto,tens meu respeito
e te quero muito
muito longe daqui.
(infernum operandi em potência e desrespeito)
Na escola
Na família
No teu lar
crescendo para ser.

Cidadania não mais perdida.
Adquirida.
Direito de meninos,
adultos,
velhos,
negros,
brancos ou
marcianos.

MINORIAS são maiorias no coração de TODOS.
( humanos humanizados pelo elo da ética)

INDEPENDÊNCIA para além
muito além de setembros
em sétimos dias.

De nada.


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pós-Vida



diante da imensidão vazia

e oceânica

imprevísivel

da vida a quem dôo um sentido

errante

mutante

as centelhas me agitam

arrancam-me de mim

quentes e dolorosas ao toque

clamando por uma chance

de nomear

resquícios

sombras
quero aprender a sonhar com o nada

agora

para quando minha hora
chegar

saber que deixarei

as mudanças

mudando

como se a vida de todos os seres

tivessem um pós-vida

ecoando

a revirar a memória

de quem tocamos

de alguma forma.


não sei o quê escrever

quase-revelações

ínfimas ou desnecessárias

colectivas

de mim.


Não é nada de altivo

ou grandioso

tentativa vã

que não me acalma

porque pestanejo diante

da pupila oscilante do mundo

nem mesmo vôo

ou me rastejo

a implorar pelo cheiro da terra

úmida

que será meu manto

no instante final.


(Te amo, seres amados,
inexistentes aqui

cuja pós-vida

entranha-se cade vez mais

naquilo que sou

de teu legado)

Abismo da Beleza Nua

Blue Nude, 1902, Picasso

A José Castello, inspiração, sempre.

"Há um quê de abismo

em cada respiração
como se a dúvida
da Queda
martelasse
para a Vida
em minha sôfrega
existência.

Suspiro de ausências
me preenche
do inútil
que me inventa"


Há um estremecer em nosso interior. Sempre.
Sombras e imagens que se desfazem sem o sabermos
sou uma sombra de mim
em instantes
ou um simulacro de imagem
que não se sustenta sob luz bruxulenate projetada numa parede áspera?

Para quê ser poeta?

Para ler aquilo que ainda está para ser escrito
inútil
se não transformado em sombras de nós.
O mundo é emaranhado de possibilidades de lecturas.
A Ciência lê com razão e técnica coladas num real chapado.
A Magia, o encontro celebratório da vida no cotidiano, lê com alma.
O terapeuta, lê emoções flutuantes entre 4 paredes.

e o poeta
nada lê.
não se propõe
poque sabe que há resquicíos no silêncio inaudito
maldito
que reina
incompreensível
para nós.

E não pergunto à vida
vou à rocha observar seu canto
lasca imprestável
de um zumbido de vida.
Mas o quê existe
insiste
e lá fica a nos rodear
com sua beleza
a imensidão incontida
em nós
e no mundo.

APP

"Antropofágico..."



"antropofágico..."

"as palavras se relacionam comigo de uma maneira tensa
quero explodi-las
até o final da minha vida"
Amor Letal